Entre panelas e tradição, Maceió dá um passo que mistura política pública e identidade cultural.

A Secretaria Municipal de Educação iniciou um projeto-piloto que propõe incluir o sururu — patrimônio imaterial de Alagoas — no cardápio das escolas da rede pública.
A iniciativa articula nutrição de qualidade, valorização da cultura local e incentivo à economia regional.
A formação, realizada na Escola Nosso Lar, reuniu merendeiras de cinco unidades municipais que passam a protagonizar essa mudança: Nosso Lar, Deraldo Campos, Rui Palmeira, Lindolfo Collor e Silvestre Péricles.
Sob orientação da merendeira e gastróloga da Semed, Raquel Vieira, o encontro marca o início de uma nova etapa na alimentação escolar, onde o saber tradicional encontra a política educacional no prato dos estudantes.
Num tempo em que a alimentação infantil oscila entre a praticidade industrial e o esquecimento das raízes, o sururu emerge quase como um gesto de reconciliação: entre o corpo e o território, entre o nutrir e o pertencer.
Pequeno em forma, mas vasto em potência, esse marisco carrega uma densidade nutricional que desafia a lógica de que o essencial precisa ser sofisticado. Rico em proteínas, ferro, zinco e vitaminas do complexo B, o sururu não apenas alimenta — ele sustenta, repara e prepara.
A nutricionista brasileira Sophie Deram afirma que “comida de verdade é aquela que nutre o corpo e também a cultura”, sugerindo que a qualidade alimentar não pode ser dissociada de sua origem e significado.
Já o pesquisador Walter Willett, de Harvard, defende que “padrões alimentares baseados em alimentos naturais e locais têm impacto direto na saúde a longo prazo”, sobretudo na infância, fase em que o organismo constrói suas bases mais duradouras.
Sob esse prisma, inserir o sururu na alimentação escolar é mais do que uma escolha técnica — é uma afirmação existencial.
É dizer à criança que sua terra produz o que ela precisa para crescer forte, que sua identidade também é alimento, e que saúde não se resume a nutrientes isolados, mas a uma teia de relações entre o corpo, a cultura e o ambiente.
Em cada colher, há mais que sustância: há memória, pertencimento e futuro.


