Na semana em que se celebra o Dia dos Povos Indígenas, em 19 de abril, Alagoas ganha um novo marco de valorização cultural e educacional.

A Secretaria de Estado da Educação (Seduc-AL) lança, no próximo dia 23, o livro digital “História e Cultura dos Povos Indígenas Em/De Alagoas”, fruto de uma construção coletiva entre a Gerência Especial de Educação Escolar Indígena (GEEEI) e docentes das escolas indígenas do estado.
Mais do que um registro histórico, a obra se propõe a reposicionar narrativas, ao apresentar os povos originários como protagonistas de sua própria história.
Como destaca o gerente da GEEEI, Gilberto Ferreira, trata-se de uma produção autoral que reconstrói fatos a partir do olhar de quem os vive — um gesto que não apenas preserva memórias, mas também afirma identidades e reivindica lugar no presente.
O lançamento ocorrerá de forma virtual, às 15h, com acesso aberto ao público.
Pensar o Brasil sem os povos indígenas é, no limite, imaginar um país amputado de sua própria origem.
Antes de qualquer projeto de nação, já existiam aqui múltiplas formas de viver, narrar e compreender o mundo — sistemas complexos de organização social, cosmologias sofisticadas e uma relação com a terra que não a reduz a mercadoria, mas a reconhece como extensão da própria existência.
Como advertiu o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, “os índios são especialistas em mundos possíveis”, lembrando-nos que a realidade não é única, mas plural, e que o Brasil nasce justamente dessa encruzilhada de perspectivas.
O historiador Sérgio Buarque de Holanda, ao analisar as raízes da formação nacional, sugere que muito do que entendemos como traço brasileiro — a adaptabilidade, a informalidade, a relação ambígua com normas — não pode ser dissociado do contato entre culturas originárias e colonizadores.
Ainda que esse encontro tenha sido marcado por violência e apagamento, ele também produziu hibridismos que estruturam o cotidiano: da língua às práticas alimentares, dos modos de habitar às formas de sociabilidade.
Já o sociólogo Darcy Ribeiro foi mais incisivo ao afirmar que o Brasil é, em essência, uma “nova Roma tropical”, erguida não apenas pela herança europeia, mas sobretudo pela contribuição indígena e africana.
Para ele, os povos originários não são vestígios do passado, mas fundamentos vivos da identidade nacional — mesmo quando invisibilizados. Essa invisibilidade, aliás, é uma das contradições mais agudas da sociedade brasileira: ao mesmo tempo em que absorve elementos indígenas, insiste em marginalizar seus sujeitos.
Do ponto de vista existencial, a presença indígena tensiona a própria ideia de progresso que o Brasil frequentemente celebra. Se, como argumenta o antropólogo Claude Lévi-Strauss, “o mundo começou sem o homem e terminará sem ele”, os povos indígenas parecem carregar uma consciência mais aguda dessa transitoriedade, propondo formas de vida que dialogam com o equilíbrio, e não com a exaustão.
Nesse sentido, eles não apenas ajudaram a formar o Brasil — eles continuam a questioná-lo.
Reconhecer a importância dos povos indígenas, portanto, não é um gesto de nostalgia ou reparação tardia; é um exercício de lucidez.
É admitir que a cultura brasileira não se construiu apesar deles, mas através deles — e que ignorá-los é, em última instância, não compreender a nós mesmos.


