Em tom de autocrítica incomum, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado (18), em Barcelona, que a esquerda perdeu o protagonismo no discurso “antissistema” ao se acomodar na gestão do modelo neoliberal.

Durante participação na Global Progressive Mobilisation (GPM), Lula argumentou que governos progressistas passaram a priorizar a governabilidade, adotando medidas de austeridade e abrindo mão de agendas estruturais.
Ao reconhecer que a esquerda “se tornou o sistema”, o presidente sugeriu que esse deslocamento abriu espaço para que a direita ocupasse a narrativa de contestação.
“Nós temos sido os gerentes da mazela do neoliberalismo (…) Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema.”
A declaração sinaliza uma inflexão no debate interno do campo progressista e reacende discussões sobre identidade, estratégia e os limites da conciliação política em cenários de crise econômica e pressão institucional.
O “Sistema” não é apenas uma engrenagem institucional; é, antes de tudo, uma construção simbólica que atravessa a imaginação coletiva. Ele se manifesta como ordem e promessa, mas também como limite e frustração.
O cientista político David Easton já definia o sistema político como um fluxo contínuo de demandas e respostas — um organismo que sobrevive menos por sua coerência interna e mais por sua capacidade de absorver tensões.
Ainda assim, quando esse fluxo se torna opaco aos olhos da população, o sistema deixa de ser percebido como mediação legítima e passa a ser visto como um mecanismo de contenção.
Pierre Bourdieu, ao analisar os campos de poder, advertia que o sistema se perpetua justamente por naturalizar suas hierarquias, transformando arbitrariedades históricas em aparentes inevitabilidades.
O indivíduo, inserido nesse campo, não apenas vive o sistema — ele o incorpora, o reproduz e, paradoxalmente, o contesta.
É nesse ponto que emerge o conflito existencial: o sujeito deseja romper com aquilo que, em grande medida, também o constitui.
Para o antropólogo Clifford Geertz, o mundo social é tecido por significados compartilhados.
O “Sistema”, nesse sentido, não é apenas o Estado ou o mercado, mas uma narrativa cultural que organiza o caos da experiência humana.
Quando essa narrativa se desgasta, surgem mitologias alternativas — frequentemente simplificadoras — que prometem devolver ao indivíduo uma sensação de controle.
O “antissistema”, então, não é necessariamente uma ruptura concreta, mas uma reinvenção simbólica do pertencimento.
Zygmunt Bauman, por sua vez, observava que, na modernidade líquida, as estruturas perdem solidez enquanto o sentimento de insegurança se intensifica.
O sistema torna-se difuso, quase invisível, e justamente por isso mais difícil de responsabilizar. Essa fluidez alimenta a percepção de que há uma força impessoal governando destinos individuais — uma entidade abstrata contra a qual se protesta, mas que raramente se compreende em sua totalidade.
Do ponto de vista geográfico, Milton Santos advertia que o sistema global se impõe de forma desigual sobre os territórios, criando “espaços de mando” e “espaços de obediência”.
O imaginário coletivo, moldado por essas assimetrias, tende a identificar o sistema como algo distante, quase estrangeiro, ainda que profundamente enraizado no cotidiano.
Assim, o cidadão comum percebe-se simultaneamente dentro e fora dele — dependente de suas regras, mas alheio às suas decisões.
No fundo, o “Sistema” é menos uma entidade fixa e mais uma experiência compartilhada de ordem e desconforto. Ele persiste não apenas por suas instituições, mas pela crença — ainda que fragmentada — de que não há alternativa plenamente inteligível.
E talvez seja justamente nesse intervalo entre compreensão e desconfiança que o imaginário coletivo encontra seu terreno mais fértil: um espaço onde o sistema é, ao mesmo tempo, necessário e insuportável.


