Até que ponto a escolha das urnas purifica o que, na origem, pode estar corrompido?

O prefeito de Cabedelo (PB), Edvaldo Neto (Avante-PB), foi afastado do cargo por decisão da Justiça menos de 48 horas após ser eleito no último domingo.
A medida ocorre no âmbito de uma operação da Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público da Paraíba, que investiga supostos desvios em contratos públicos e a possível infiltração da facção criminosa Comando Vermelho na administração municipal.
De acordo com apuração, o prejuízo potencial sob investigação pode chegar a R$ 273 milhões.
A eleição suplementar na cidade foi realizada após a cassação do prefeito anterior, também envolvido em denúncias relacionadas a organizações criminosas.
A democracia, em sua essência, se pretende um instrumento de legitimação da vontade popular — mas não um salvo-conduto moral.
Quando o voto, expressão máxima da soberania, passa a chancelar figuras sob suspeita ou já envoltas em práticas ilícitas, instala-se uma tensão inquietante entre legalidade e legitimidade. Afinal, até que ponto a escolha das urnas purifica o que, na origem, pode estar corrompido?
O filósofo Karl Popper advertia que “a democracia não é o governo da maioria, mas o mecanismo que permite substituir governantes sem derramamento de sangue”.
Há, nesse raciocínio, uma advertência implícita: o processo democrático não garante virtude, apenas oferece um método de correção.
No entanto, quando estruturas criminosas passam a influenciar ou capturar esse processo, o próprio mecanismo de correção se torna refém.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, observou que sistemas podem se degradar não apenas por grandes tiranias, mas pela normalização do inaceitável.
Quando a sociedade tolera — por cansaço, conveniência ou descrença — a presença de agentes comprometidos com o ilícito na máquina pública, o extraordinário se torna rotina, e o escândalo perde sua força moral.
O risco, então, deixa de ser apenas jurídico e passa a ser civilizatório.
A democracia não legitima o crime; no máximo, revela as fragilidades de uma sociedade que, por vezes, parece disposta a conviver com ele.
E é nesse ponto que reside o perigo mais profundo: não na existência de maus governantes, mas na erosão silenciosa dos critérios que deveriam impedi-los de chegar ao poder.


