Na política alagoana, onde às vezes a realidade parece pedir licença à ficção, o vereador Kelmann Vieira decidiu inovar em suas críticas — e conseguiu.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o vereador Kelmann Vieira surge ladeado por dois apoiadores com sacos de papel na cabeça, devidamente estilizados com adesivos de pré-campanha, como se participassem de uma reunião secreta… patrocinada.
Entre o suspense e a sátira carnavalesca, Kelmann comenta, ao seu estilo, a “perseguição” política e assegura que, apesar do clima quase cinematográfico, o enredo já teria final definido: JHC no governo, ele em Brasília.
Comigo não precisa temer! Não concordo com a política da perseguição e da intimidação! Muitos tem me procurado querendo nos apoiar mas tem medo de tornar isso público porque está sedo perseguido! Aqui não trabalhamos amedrontando! Trabalhamos com ações e servicos prestados! Vamos juntos por toda Alagoas!
Os figurantes anônimos, segundo o próprio, só revelariam suas identidades após a vitória — uma espécie de “máscara cai” versão eleitoral.
A cena, que flerta com o teatro do absurdo, também carrega sua crítica: há, segundo o vereador, apoiadores que preferem o anonimato por receio de retaliações.
Enquanto isso, nos bastidores, o roteiro segue com reviravoltas partidárias — incluindo sua saída do MDB, mesmo sem bênção oficial, rumo ao PSDB; com possibilidade real de perda de mandato.
A ideia de perseguição política — real, percebida ou estrategicamente evocada — opera como um corrosivo silencioso da democracia.
Ela não precisa, necessariamente, se materializar em prisões arbitrárias ou censura explícita; basta insinuar-se como possibilidade constante para alterar comportamentos, reduzir vozes e estreitar o espaço público.
O medo, quando institucionalizado ou explorado, transforma cidadãos em espectros de si mesmos: presentes, mas não plenamente participantes.
A cientista política Hannah Arendt advertia que “o medo é o mais eficaz dos instrumentos de dominação”, pois dispensa, muitas vezes, o uso contínuo da força — basta a expectativa dela.
Nesse cenário, o debate democrático deixa de ser um confronto legítimo de ideias e passa a ser um campo minado, onde cada palavra é calculada não pela sua verdade, mas pelo risco que carrega.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, ao analisarem o declínio das democracias contemporâneas, argumentam que regimes não colapsam apenas por golpes abruptos, mas também por erosões graduais, quando normas informais — como a tolerância mútua e o respeito ao adversário — são substituídas por lógicas de inimização.
A perseguição, ou a narrativa dela, contribui exatamente para isso: transforma o oponente em ameaça existencial, justificando excessos e normalizando exceções.
Ao mesmo tempo, como pondera a cientista política Pippa Norris, a percepção de injustiça institucional pode ser tão danosa quanto a própria injustiça, pois mina a confiança coletiva nas regras do jogo.
Quando indivíduos acreditam que serão punidos por suas posições, a autocensura passa a ser uma forma de sobrevivência — e a democracia, que depende da pluralidade visível, começa a definhar em silêncio.
No limite, a perseguição política — concreta ou performada — não atinge apenas seus alvos imediatos; ela reconfigura o imaginário social.
O cidadão deixa de se reconhecer como agente livre e passa a se comportar como alguém que observa, calcula, hesita.
E uma democracia onde o indivíduo hesita em existir publicamente já não é plenamente democrática — é apenas um esboço, um rascunho temeroso de si mesma.


