Em Brasília, onde até o acaso costuma ter estratégia, a disputa por uma vaga no Tribunal de Contas da União ganhou um tempero quase didático sobre como a política, por vezes, tropeça em si mesma.

O lançamento da candidatura de Hélio Negão (PL), longe de embaralhar o jogo, parece ter prestado um curioso “serviço involuntário” ao adversário Odair Cunha (PT).
Nos bastidores, governistas observam — alguns com discreto alívio, outros com ironia mal disfarçada — que a movimentação do PL fragmenta qualquer tentativa de articulação mais robusta contra Cunha.
Em outras palavras, ao entrar no jogo, Negão pode ter ajudado a definir o placar antes mesmo do apito inicial.
É o tipo de lance que confirma a velha máxima não escrita da política nacional: às vezes, o maior aliado não é quem soma, mas quem divide — especialmente quando o objetivo era justamente o contrário.
Há algo de profundamente inquietante — e até corrosivo — no modo como as indicações para os Tribunais de Contas, instituições que deveriam guardar a austeridade republicana, foram sendo lentamente capturadas pelo teatro do improviso político.
O que deveria ser um rito de elevação técnica e moral transformou-se, não raro, em um desfile de conveniências, onde a competência é acessório e a lealdade, moeda corrente.
Montesquieu advertia que “tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo dos principais, exercesse os três poderes”.
O que se presencia, porém, é algo ainda mais sutil e perverso: não a fusão formal dos poderes, mas a sua promíscua cooptação, onde o órgão encarregado de fiscalizar passa a ser composto por aqueles cuja trajetória é inseparável das engrenagens que deveriam vigiar.
Não é independência — é familiaridade institucionalizada.
O deboche se instala justamente aí: na naturalização do absurdo. Indicações que deveriam provocar escrutínio rigoroso são tratadas como mera etapa protocolar, um acordo entre pares, um gesto de retribuição política.
A liturgia do cargo é esvaziada, e o que resta é um simulacro de legalidade, sustentado por discursos formais que mal disfarçam o desvio de finalidade.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, observou que os maiores desvios nem sempre se anunciam com estrondo, mas se infiltram na rotina, travestidos de normalidade.
É exatamente esse o risco que se desenha: quando a exceção deixa de escandalizar, o sistema já foi corroído por dentro. O que deveria causar indignação passa a provocar apenas um suspiro resignado — ou, pior, um sorriso cínico.
Criticar esse estado de coisas não é um exercício de purismo ingênuo, mas um imperativo de sobrevivência institucional.
Tribunais de Contas não são prêmios de consolação, nem abrigos para carreiras políticas em declínio. São, ou deveriam ser, pilares técnicos do controle do Estado. Quando se transformam em palco de barganhas, não apenas se desmoralizam — comprometem a própria ideia de responsabilidade pública.
No fim, resta a pergunta incômoda: quem fiscaliza os fiscais, quando a escolha destes já nasce contaminada? Se a resposta for o silêncio ou a complacência, então não se trata mais de crise — mas de um acordo tácito com a decadência.


