Entre acordes improvisados e versos que viralizaram o Brasil, a política nacional ganha um novo refrão — e, ao que tudo indica, também uma nova caneta.

Manoel Gomes, o inconfundível intérprete de “Caneta Azul”, anunciou sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados, numa movimentação que mistura carisma popular, timing digital e uma pitada generosa de surpresa.
Filiado ao Avante, o cantor parece disposto a transformar o bordão que o projetou em instrumento legislativo, sugerindo — com notável convicção — que sua caneta agora pretende assinar mais do que hits virais: projetos de lei.
Resta saber se, em Brasília, o coro será afinado ou se a política brasileira ganhará apenas mais um verso curioso em sua já extensa playlist de figuras improváveis.
A política brasileira, observada em sua longa e sinuosa trajetória, parece não apenas tolerar, mas quase exigir uma dose recorrente de excentricidade — como se o improvável fosse menos exceção e mais engrenagem.
Personagens insólitos emergem, discursos escapam à lógica convencional e, ainda assim, encontram eco em uma sociedade que, por vezes, oscila entre o desencanto e a necessidade de acreditar em algo — ainda que esse “algo” venha embalado em caricatura.
O psiquiatra Carl Jung já advertia que “aquilo que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino”.
Sob essa lente, a excentricidade política pode ser interpretada não como mero desvio individual, mas como sintoma coletivo: projeções de desejos, frustrações e impulsos reprimidos que encontram, na figura pública, um palco legitimado.
O excêntrico, então, deixa de ser apenas um indivíduo e passa a funcionar como espelho — ainda que distorcido.
Na antropologia, Clifford Geertz sugeriu que a cultura é uma “teia de significados” tecida pelos próprios indivíduos.
O Brasil, em sua pluralidade quase caótica, constrói uma teia particularmente complexa, onde o absurdo e o cotidiano frequentemente se entrelaçam sem constrangimento.
Nesse cenário, figuras políticas excêntricas não são aberrações: são, antes, expressões coerentes de uma cultura que convive com o improviso, a teatralidade e a reinvenção constante de si mesma.
Já o sociólogo Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, apontou que vivemos tempos de fragilidade institucional e identidades voláteis.
Nesse ambiente, o excêntrico prospera — não apesar de sua estranheza, mas justamente por ela. Ele rompe a previsibilidade, captura atenção e oferece uma narrativa simples em meio à complexidade difusa. Em uma sociedade saturada de informação e carente de sentido, o inusitado torna-se, paradoxalmente, um ponto de ancoragem.
Assim, a política brasileira parece operar em uma espécie de teatro existencial, onde o absurdo não apenas entra em cena, mas frequentemente assume o protagonismo.
E talvez a pergunta mais inquietante não seja por que essas figuras surgem, mas por que encontram ressonância tão ampla.
No fundo, como insinuaria Jung, talvez não estejamos apenas elegendo representantes — estejamos, silenciosamente, elegendo nossas próprias contradições.


