Como quem troca o roteiro de um drama político por um manual de inteligência emocional, o Partido Avante decidiu apostar em um novo protagonista para a corrida presidencial: o psiquiatra e escritor Augusto Cury.

Conhecido por decifrar as angústias da mente humana em best-sellers que ocupam prateleiras e cabeceiras pelo país, Cury agora é apresentado como possível terapeuta de uma nação exausta de suas próprias tensões.
O anúncio, feito nas redes sociais, surge com tom quase confessional — uma espécie de desabafo coletivo travestido de estratégia política.
Em meio a um cenário marcado por disputas acirradas e discursos inflamados, o partido sugere virar a página com alguém que, ao menos no papel, entende de emoções, conflitos e reconstruções internas.
Resta saber se, no grande palco da política brasileira, onde nem sempre a razão vence o ruído, haverá espaço para transformar teorias sobre a mente em práticas de governo — ou se o eleitor seguirá preferindo velhos enredos, ainda que já conhecidos demais.
A democracia, quando reduzida a um duelo previsível entre figuras já conhecidas, deixa de ser escolha e passa a ser repetição — quase um ritual cansado em que o eleitor apenas reconhece, mas raramente descobre.
A diversidade de perfis de candidatos, nesse sentido, não é um capricho do sistema, mas sua própria condição de vitalidade: é o que impede a política de se tornar um espelho estreito, refletindo sempre os mesmos rostos, as mesmas ideias, os mesmos vícios.
O filósofo Isaiah Berlin advertia que “a liberdade não é apenas a ausência de coerção, mas a presença de alternativas reais”.
Sem alternativas autênticas, o ato de votar se esvazia de sentido e se aproxima perigosamente de uma escolha condicionada — uma liberdade formal, mas não substancial.
Diversificar candidaturas é, portanto, ampliar horizontes de pensamento, permitir que diferentes experiências humanas — da técnica à sensibilidade, da gestão à introspecção — disputem legitimamente o imaginário coletivo.
Há, também, um elemento profundamente existencial nesse processo: ao escolher entre múltiplos perfis, o eleitor não apenas decide sobre o futuro do país, mas projeta, ainda que de forma difusa, aquilo que acredita que o ser humano pode e deve ser na esfera pública.
Cada candidato representa uma hipótese de humanidade em exercício — mais pragmática, mais idealista, mais técnica, mais emocional.
Reduzir essa pluralidade é empobrecer não só a política, mas a própria compreensão de quem somos enquanto sociedade.
Afinal, como sugeria Hannah Arendt, “a política nasce no espaço entre os homens”, e esse “entre” só existe plenamente quando há diferença, contraste, tensão e possibilidade. Sem isso, resta apenas o silêncio disfarçado de escolha.


