Entre filtros, likes e promessas que misturam ironia e ambição, a política alagoana acaba de ganhar um novo personagem digno de roteiro contemporâneo.

O influenciador Rico Melquiades — fenômeno das redes e veterano de realities — oficializou sua filiação ao PSDB, ancorando-se no grupo político liderado pelo prefeito de Maceió, João Henrique Caldas.
Com mais de 11 milhões de seguidores, Rico não apenas entra na arena pública: ele a transforma em extensão do feed.
Ao anunciar a novidade, preferiu o humor à liturgia tradicional da política, provocando risos e sobrancelhas erguidas ao prometer, em tom jocoso, “cirurgia plástica para geral” e ao declarar, sem modéstia, que “Brasília está no radar”.
Entre o espetáculo e a estratégia, sua chegada levanta uma pergunta inevitável: onde termina o entretenimento e começa o poder?
Em tempos de política performática, talvez essa fronteira já tenha sido definitivamente editada.
A presença de personagens oriundos do cotidiano — influenciadores, artistas, figuras populares — no cenário eleitoral não é um acidente histórico, mas um sintoma eloquente de uma transformação mais profunda na forma como a sociedade percebe, constrói e legitima o poder.
O que antes se ancorava na autoridade técnica, no discurso institucional e na liturgia formal da política, hoje passa a disputar espaço com a lógica da visibilidade, da identificação e da narrativa pessoal.
O antropólogo Clifford Geertz já advertia que “a política é uma das formas mais intensas de dramatização da cultura”, sugerindo que o poder não se exerce apenas por estruturas, mas por símbolos, performances e significados compartilhados.
Nesse sentido, figuras como influenciadores digitais que adentram a política não rompem com o sistema — antes, o traduzem em uma nova linguagem, mais palatável a uma sociedade saturada de imagens e imediatismos.
Pierre Bourdieu, por sua vez, ao analisar os campos sociais, argumentava que o capital simbólico — prestígio, reconhecimento, visibilidade — pode ser convertido em capital político.
O que se observa hoje é essa conversão em estado quase puro: seguidores transformam-se em eleitores potenciais; engajamento vira moeda de influência; e a autenticidade performada nas redes sociais passa a competir com a experiência administrativa.
Não se trata, portanto, de uma anomalia, mas de uma reconfiguração dos critérios de legitimidade.
Exemplos não faltam. No Brasil, Tiririca, com seu bordão “pior que tá não fica”, foi eleito deputado federal com votação expressiva, encarnando o descontentamento popular travestido de humor.
Nos Estados Unidos, Donald Trump, oriundo do entretenimento televisivo, construiu uma narrativa política baseada na lógica do espetáculo e da polarização midiática.
Na Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ex-comediante, ascendeu à presidência após interpretar justamente um presidente em uma série de TV — uma fusão quase irônica entre ficção e realidade.
Esses casos ilustram o que o sociólogo Zygmunt Bauman descreveu como a “liquidez” das relações contemporâneas: estruturas outrora sólidas tornam-se flexíveis, e as fronteiras entre público e privado, entretenimento e política, tornam-se porosas.
Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, foi ainda mais incisivo ao afirmar que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. A política, nesse contexto, não escapa: ela se estetiza, se encena e, muitas vezes, se simplifica.
Há, contudo, uma tensão inevitável.
Se por um lado essas figuras ampliam o acesso e mobilizam públicos antes desinteressados, por outro, correm o risco de reduzir o debate político a slogans, performances e promessas de fácil consumo.
A democracia, que exige complexidade, deliberação e responsabilidade, passa a conviver com a lógica da viralização — rápida, emocional e frequentemente superficial.
No fundo, a ascensão dessas personalidades revela menos sobre elas e mais sobre nós. Como sociedade, passamos a valorizar não apenas quem governa, mas quem nos representa simbolicamente, quem fala nossa linguagem e encena nossas frustrações.
A política, nesse espelho contemporâneo, deixa de ser apenas um espaço de decisão para tornar-se, também, um palco onde se disputa algo mais difuso — o sentido de pertencimento em um mundo cada vez mais fragmentado.


