Em um enredo que parece flertar com a ficção — mas insiste em se afirmar como realidade —, um voo privado de Brasília a Maceió transforma-se em símbolo de uma inquietante interseção entre poder, interesses e conveniências.

O ministro do STF Kassio Nunes Marques, acompanhado da esposa, cruzou os céus a convite — e às custas — de uma advogada com atuação direta em causas de um banco de relevância nacional, o Banco Master.
O episódio, que poderia ser reduzido a uma mera gentileza social, ganha contornos mais densos ao se entrelaçar com vínculos empresariais, relações institucionais e a delicada teia do sistema de Justiça.
A aeronave, vinculada a uma empresa com histórico societário ligado ao próprio banco interessado, amplia a zona de sombra que paira sobre a narrativa.
Não se trata apenas de um deslocamento aéreo, mas de um trânsito simbólico por áreas cinzentas onde ética, aparência de imparcialidade e confiança pública são colocadas à prova.
Em tempos em que a transparência deveria ser bússola, o episódio levanta uma pergunta incômoda: até que ponto o céu continua sendo o limite — e quando passa a ser apenas mais um atalho?
Há encontros que não deixam registros formais, mas inscrevem marcas profundas naquilo que sustenta a própria ideia de Justiça: a confiança.
Quando magistrados — cuja autoridade repousa não apenas na lei, mas na aparência inequívoca de imparcialidade — se aproximam de partes interessadas, investigados ou agentes vinculados a litígios, o que se rompe não é apenas um protocolo; é um pacto silencioso com a sociedade.
A filosofia do direito há muito adverte que não basta ao juiz ser justo — é imperativo que também pareça justo.
Como ponderava Montesquieu, “não há liberdade se o poder de julgar não estiver separado dos demais poderes”. Poder-se-ia acrescentar: não há credibilidade quando o julgador se confunde, ainda que simbolicamente, com aqueles que podem se beneficiar de suas decisões.
Essas relações, ainda que travestidas de cordialidade ou convivência social, instauram uma zona de ambiguidade perigosa.
O magistrado deixa de ser apenas intérprete da norma para se tornar personagem de suspeição. E a suspeita, diferentemente da prova, não precisa ser conclusiva para ser devastadora — basta ser plausível.
A erosão da credibilidade não ocorre de forma abrupta; ela se infiltra, discreta, quase imperceptível, até comprometer a autoridade moral da toga. Afinal, como advertia Rui Barbosa, “a pior ditadura é a do Poder Judiciário, contra ela não há a quem recorrer”.
Se a confiança nesse poder se fragiliza, o que resta não é apenas a dúvida sobre um caso concreto, mas a inquietante sensação de que a Justiça, antes cega, pode ter passado a enxergar demais — e escolher mal o que ver.


