Entre partituras e o tempo que insiste em correr, João Carlos Martins decide, mais uma vez, contrariar o óbvio: em São Paulo, o maestro inaugura a primeira orquestra sênior do Brasil, formada exclusivamente por músicos com mais de 60 anos.

À frente da direção artística, ele revela que a Orquestra Bachiana Sênior Sesi-SP reúne 25 instrumentistas, com idades entre 62 e 80 anos — muitos recém-saídos de palcos consagrados como a Osesp, a Sinfônica Municipal, o Theatro Municipal e a Osusp.
Ao reunir talentos que o mercado, por vezes, ousa substituir, Martins não apenas conduz notas — ele afirma, com firmeza e sensibilidade, que a arte não envelhece, apenas amadurece.
E há, nesse retorno, algo que ultrapassa a técnica: músicos que aceitaram o convite com lágrimas nos olhos, como quem reencontra não apenas a música, mas a própria razão de existir em cena.
Ao sustentar que o projeto nasce como um gesto de esperança, o maestro parece reger mais que uma orquestra — ele orquestra a dignidade do tempo.
A música, mais do que arte, é linguagem anterior à própria palavra — um território onde o humano se reconhece sem precisar se explicar. Especialmente aos idosos, ela se transforma em refugio e bálsamo para uma verdadeira transfiguração à juventude.
Em meio ao ruído do mundo, ela se insinua como refúgio e espelho: ora organiza o caos interno, ora traduz aquilo que a razão não consegue nomear. Há quem a trate como entretenimento; outros, mais atentos, a reconhecem como necessidade.
O psiquiatra Oliver Sacks já afirmava que “a música pode nos levantar do abatimento ou nos conduzir às lágrimas — é um remédio, uma tônica, um suco de laranja para o ouvido”.
Ao dizer isso, ele não romantiza: constata que, no cérebro, a música mobiliza áreas ligadas à memória, à emoção e à identidade, como se fosse capaz de costurar partes fragmentadas do ser.
Em pacientes com doenças neurodegenerativas, por exemplo, Sacks observou que canções antigas despertavam lembranças que nem mesmo o nome próprio conseguia resgatar — como se a melodia guardasse aquilo que o tempo tentou apagar.
O psicólogo Carl Gustav Jung, por sua vez, ao analisar os símbolos e os arquétipos, sugeria que certas expressões humanas — entre elas a música — emergem de um inconsciente coletivo, profundo e compartilhado.
Nesse sentido, ouvir ou produzir música não seria apenas um ato individual, mas uma forma de reconexão com algo maior, quase ancestral. Não por acaso, diferentes culturas, em tempos e geografias distintas, recorreram ao som para celebrar, lamentar, curar e transcender.
Mais recentemente, o psiquiatra e pesquisador Daniel Levitin observa que “a música é uma das formas mais antigas de vínculo social”, destacando seu papel na coesão entre indivíduos.
Ao cantar em coro, ao dançar em sincronia ou ao simplesmente compartilhar uma canção, o ser humano afirma — ainda que silenciosamente — que não está só. E quando esse espaço é aberto e garantido àqueles mais vulneráveis, a exemplo de idosos, seu poder se expande.
Em um mundo marcado por isolamento crescente, essa função agregadora da música não é detalhe: é resistência.
Assim, a música não apenas acompanha a vida; ela a estrutura, a comenta e, por vezes, a salva.
Entre silêncios e acordes, ela nos lembra que existir não é apenas sobreviver — é também sentir, recordar e, sobretudo, permanecer em sintonia com aquilo que nos torna profundamente humanos.


