Num movimento que soa quase como um “apagão geracional” nas telas, a Indonésia decidiu reescrever a relação de milhões de jovens com o mundo digital: cerca de 70 milhões de crianças e adolescentes foram oficialmente retirados das redes sociais a partir deste sábado (28).

A nova norma, que proíbe o acesso a menores de 16 anos, transforma o país em mais um protagonista de uma crescente cruzada global contra os efeitos viciantes e, por vezes, nocivos das plataformas.
Entre desativações em massa e algoritmos silenciados, o arquipélago asiático aposta que proteger a infância pode exigir, paradoxalmente, desconectar para reconectar — com a realidade.
Há algo de profundamente simbólico — e, ao mesmo tempo, inquietante — na decisão de países como a Indonésia de interditar o acesso de menores às redes sociais: não se trata apenas de regular plataformas, mas de redesenhar os limites entre infância, liberdade e tutela em um mundo onde a realidade já nasce mediada por telas.
O gesto, que à primeira vista parece protetivo, também revela uma tensão civilizatória ainda não resolvida: até que ponto é possível formar sujeitos autônomos em ambientes projetados, precisamente, para capturar sua atenção?
O psicólogo social Jonathan Haidt, ao analisar o impacto das redes sobre jovens, alerta que “estamos conduzindo um experimento massivo e não supervisionado sobre o desenvolvimento infantil”.
Sua observação não é retórica: países como França e Itália já impuseram restrições ao uso de celulares em escolas; a Austrália discute legislações mais rígidas para acesso por idade; e, nos Estados Unidos, diversos estados pressionam plataformas por mecanismos mais severos de verificação.
Em comum, todos parecem admitir — ainda que tardiamente — que o ambiente digital não é neutro, mas estruturalmente desenhado para maximizar permanência, engajamento e dependência.
Shoshana Zuboff, professora de Harvard e autora de A Era do Capitalismo de Vigilância, argumenta que “as plataformas não são apenas ferramentas de comunicação, mas arquiteturas de modificação comportamental”.
Sob essa lente, permitir que crianças naveguem livremente por esses espaços seria, no mínimo, uma negligência sofisticada: expô-las a sistemas que aprendem com suas fragilidades antes mesmo que elas aprendam a reconhecê-las em si mesmas.
Mas há, também, um contraponto que precisa ser considerado.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao refletir sobre a modernidade líquida, já insinuava que o problema não está apenas nas ferramentas, mas na fluidez das relações contemporâneas.
Proibir o acesso pode, nesse sentido, ser apenas um paliativo — uma tentativa de conter sintomas sem enfrentar a causa: uma sociedade que terceirizou à tecnologia a mediação de vínculos, afetos e pertencimento. Ao afastar os jovens das redes, pergunta-se: estamos protegendo-os ou apenas adiando seu encontro com um mundo que continuará sendo, inevitavelmente, digital?
Exemplos recentes ilustram essa ambiguidade.
Na China, o uso de plataformas por menores é rigidamente controlado, com limites de tempo e conteúdos filtrados; ainda assim, surgem críticas sobre excesso de vigilância estatal.
Já na União Europeia, o debate gira em torno de equilibrar proteção e autonomia, exigindo das empresas mais transparência algorítmica sem necessariamente excluir os jovens do ambiente digital. Em ambos os casos, o dilema persiste: regular demais pode sufocar; regular de menos pode abandonar.
No fundo, a questão não é apenas tecnológica, mas antropológica.
O filósofo Byung-Chul Han observa que “a sociedade do cansaço não impõe proibições, mas seduções contínuas”.
E talvez seja exatamente isso que torna o problema tão complexo: não estamos lidando com um perigo explícito, mas com um encantamento silencioso — um fluxo infinito de estímulos que captura o tempo, molda identidades e redefine o próprio conceito de presença.
Proibir, portanto, é um gesto que carrega tanto prudência quanto confissão: prudência por reconhecer os riscos; confissão por admitir que ainda não sabemos, com clareza, como educar uma geração que nasceu dentro do algoritmo. Entre a proteção e a liberdade, o mundo contemporâneo parece tatear no escuro, tentando responder a uma pergunta que ainda ecoa sem solução definitiva: formar ou proteger — e até que ponto essas duas coisas ainda podem coexistir.


