No teatro já conhecido das coincidências improváveis, mais um ato se desenrola com a elegância de um roteiro previsível. Em mais um Ato envolvendo o Banco Master, o líder do Governo no Senado, Senador Jaques Wagner (PT-BA)

Surge no elenco uma empresa recém-criada, convenientemente ligada à nora de um influente líder do governo no Senado, que, por capricho do destino — e talvez de boas conexões — encontra espaço na folha de pagamento de uma instituição financeira.
A protagonista, de currículo multifacetado — entre a psicologia, o direito e a floricultura — agora floresce também no árido campo do crédito consignado.
O Banco Master pagou ao menos R$ 11 milhões à empresa da nora do líder do governo no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA).
Nada mais natural, afinal, do que talentos tão diversos desabrocharem justamente onde há oportunidades… especialmente quando regadas por relações próximas ao poder.
Enquanto isso, o enredo segue seu curso com a sobriedade habitual: sociedades confirmadas, vínculos reconhecidos e uma narrativa que, embora tecnicamente explicável, parece desafiar a ingenuidade do espectador.
No fim, resta ao público decidir se assiste com surpresa ou apenas com aquele sorriso irônico de quem já conhece bem esse tipo de espetáculo.
Quando o pudor institucional se dissolve, não é apenas a norma que se fragiliza — é o próprio sentido de legitimidade que começa a se desfazer.
As instituições, que deveriam se sustentar sobre pilares de ética, impessoalidade e confiança pública, passam a habitar uma zona cinzenta onde o aceitável e o questionável já não se distinguem com clareza. E, nesse terreno turvo, o cidadão comum deixa de ver nelas um reflexo do interesse coletivo para enxergar apenas a extensão de interesses particulares.
A ausência de constrangimento diante do que deveria causar desconforto moral corrói silenciosamente a credibilidade.
O problema não está apenas no ato em si, mas na naturalização dele — na indiferença que o cerca, na falta de espanto.
Como advertia Hannah Arendt, “o mal torna-se banal quando deixa de ser questionado”.
E talvez seja exatamente essa banalização que mais fira o espírito público: quando o desvio já não escandaliza, é sinal de que o horizonte ético foi rebaixado.
Nesse contexto, instala-se uma crise que não é apenas política, mas existencial.
A confiança, esse elo invisível entre governantes e governados, vai sendo erodida até restar apenas ceticismo. E uma sociedade que já não acredita em suas próprias instituições passa a viver sob o peso da suspeita permanente, onde tudo parece possível — e, por isso mesmo, nada mais é verdadeiramente respeitado.
Resgatar o pudor institucional, portanto, não é um capricho moralista, mas uma necessidade civilizatória.
É recolocar limites onde eles foram dissolvidos, restabelecer o senso de medida e, sobretudo, relembrar que o poder, quando desprovido de decoro, deixa de servir e passa apenas a se servir.


