
Em tempos de crise de referência que promove uma sociedade atônita e mentalmente adoecida, eis uma breve abordagem acerca dos princípios que podem conduzir os indivíduos ao “bem”.
¹ De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês?
² Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem.
³ Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres. (Tiago 4:1-3)
O autor do texto acima é um meio irmão de Jesus que se converteu ao cristianismo após a ressurreição dele, tendo produzido um epistola inicialmente dedicada à igreja de Jerusalém, todavia, obtendo alcance geral.
Ao que nos parece, o problema da referência para fins de orientação comportamental tem origem remota.
Em que pese tenhamos uma infinidade de Leis, Decretos, e demais espécies normativas, tudo tem se apresentado ao homem médio como um confuso plexo de escritos cujo conhecimento se torna impossível, repercutindo em descumprimentos constantes.
Em sendo assim, como resolver o problema da desordem social quando os indivíduos que compõe o coletivo não conhecem os princípios do bem comum?
A Filosofia possui um ramo específico de estudo cujo objeto, dentro do espectro da Filosofia Prática, é a Ética ou Moral.
Jaques Maritain[1] leciona que, “a ciência prática que visa alcançar o puro e simples bem do homem, constitui a Moral ou Ética e, como tem por objeto próprio, não a perfeição das obras preparadas e produzidas pelo homem, mas a bondade ou a perfeição do próprio homem que age do uso que que este faz livremente de suas faculdades, ele é propriamente a ciência do agir.”
Mais adiante, o citado autor admite que a Ética só fornece regras da conduta humana na ordem natural, tal qual seria se o homem tivesse por fim uma beatitude natural (o que não ocorre ante a sua imperfeição) e assim conclui: “Ora, tendo de fato o homem, como fim último, um fim sobrenatural (Deus possuído não pelo conhecimento imperfeito da razão humana como tal, mas pela visão beatífica e deificante da essência divina) e devendo os seus atos serem regrados em relação a este fim sobrenatural e de maneira a conduzi-los a esse fim, a Ética ou Moral filosófica é evidentemente insuficiente para ensinar-lhe tudo o que deve saber para bem agir. Deve ser completada e superelevada pelos ensinamentos da revelação.”
Pois bem!
Resta clarividente que para que o homem natural e imperfeito obtenha um modo de agir que o leve ao bem comum (felicidade e paz coletiva) eis que os regramentos e normativos por ele criados são insuficientes ou desprovidos de essência superior, sendo necessário buscar no plano divinal (pois que reputado por perfeito) os princípios necessários para dar “vida” às aspirações humanas.
Não foi à toa que Montesquieu, em sua obra mais importante, o tratado politico O Espírito das Leis (1748), concluiu que a única lei a governar todos os povos humanos era a criada pela razão fornecida por Deus, o que os diferenciava dos demais animais e os estimulava a viver em sociedade em respeito às leis naturais de busca de paz, alimentos, etc.
Todavia, sua obra se consagrou no âmbito político e filosófico pela propositura de estruturas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário) que, devidamente operados em observância de leis que variavam de acordo com cada sociedade, fossem capazes de minimizar os conflitos que naturalmente surgiriam em razão das imperfeições dos indivíduos.
Não estamos aqui a criticar a consagrada proposta de Montesquieu que, aliás, inspira a grande maioria da organização dos Estados no planeta mas, a dizer que tudo isso só poderia funcionar a contento se, e somente se, o indivíduo que estivesse sob o pálio desse sistema, agisse conforme os princípios inspirados pela perfeição divinal.
Senão vejamos.
Se estamos sob a égide de um complexo sistema normativo, de poderes constituídos e sistematicamente organizados, donde procedem as crises, os crimes, a corrupção institucionalizada, e todas as maledicências elencadas por Thiago (vide excerto do texto bíblico que inicia este texto)?
Ainda quanto ao texto em referência, quando Tiago se reporta a pedidos àquele que detém todo o Poder e está na instância máxima superior, resta claro que o não atendimento ao que se pede se dá pela incompatibilidade entre o desejo do peticionante o os princípios do Divino.
A guisa de uma breve pausa (visto que o tema não se exaure nessas breves linhas) deixaremos algumas idéias acerca dos princípios estabelecidos pelo Criador cujos atributos são perfeição, onipotência e eternidade que, quando observados são capazes de melhorar os indivíduos e, por conseguinte, o coletivo.
Vejamos:
¹ Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
² Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
³ Não terás outros deuses diante de mim.
⁴ Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
⁵ Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.
⁶ E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
⁷ Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
⁸ Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
⁹ Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
¹⁰ Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
¹¹ Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
¹² Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
¹³ Não matarás.
¹⁴ Não adulterarás.
¹⁵ Não furtarás.
¹⁶ Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
¹⁷ Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. (Êxodo 20:1-17)
Por seu turno, Jesus Cristo, havido como o filho de Deus, conseguiu sintetizar tudo isso, da seguinte forma:
²⁹ Respondeu Jesus: “O mais importante é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor.
³⁰ Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’.
³¹ O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Não existe mandamento maior do que estes”. Marcos 12:29-31
Sobre o autor:
Antônio Henrique T. Neto é Cristão e Músico. Graduado em Administração de Empresa, Bacharel em Direito e pós graduado em Gestão Estratégica, Marketing e Direto material e processual do Trabalho. Autor do livro Assédio Moral, incidência e estratégias para prevenção e repressão, foi docente de disciplinas dos cursos de Administração de Empresa e Direito por mais de 15 anos.
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[1] MARITAIN, Jaques. Elementos de Filosofia1: introdução geral à Filosofia; tradução de Ilza das Neves e Heloisa de Oliveira Penteado; revista por Irineu da Cruz Guimarães – 17ª Ed. Editora Agir. Rio de Janeiro, 1994.



Uma excelente reflexão sobre moral, Deus e os caminhos que devemos seguir para ficarmos cada vez mais próximos daquilo que o Cristo espera de nós Cristãos.