Em um movimento que mistura política externa, tensão ideológica e aquele tempero típico da diplomacia contemporânea, o governo Lula decidiu que um assessor do governo Donald Trump não terá passagem livre pelo território brasileiro.

Entre notas diplomáticas, carimbos de passaporte e a velha liturgia das relações internacionais, o Brasil resolveu puxar o freio de mão — ou melhor, baixar a cancela da imigração.
Nesta sexta-feira (13/3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Darren Beattie, assessor sênior do Departamento de Estado dos Estados Unidos, está oficialmente proibido de entrar no país.
“Aquele cara americano que disse que viria para cá para visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados”, disse Lula.
A decisão veio acompanhada de um gesto concreto do Itamaraty: a revogação do visto do norte-americano.
No tabuleiro delicado da diplomacia, onde palavras costumam pesar mais do que malas diplomáticas, a mensagem brasileira foi clara — e, desta vez, o carimbo no passaporte disse mais do que qualquer discurso.
Na política, como na vida psíquica, pequenos gestos revelam grandes estruturas de personalidade.
Às vezes, um simples carimbo negado em um passaporte pode dizer mais sobre o estado emocional de um governante do que dezenas de discursos solenes em palácios.
Quando um líder reage ao adversário externo como uma criança que leva a bola embora porque o jogo não está mais ao seu gosto, a política se aproxima perigosamente da psicologia infantil.
O episódio da revogação do visto de um assessor ligado ao campo político rival nos Estados Unidos lembra aquilo que o psiquiatra Carl Gustav Jung descrevia como a regressão do ego: “Quando a consciência não suporta o conflito, ela retorna a formas mais primitivas de comportamento.”
A diplomacia, idealmente, é o espaço da maturidade institucional — o terreno onde Estados dialogam mesmo quando discordam profundamente.
Transformá-la em extensão das antipatias pessoais ou ideológicas é reduzir a política internacional ao pátio de uma escola, onde birras substituem argumentos e a autoridade tenta se afirmar pelo gesto teatral.
O psiquiatra e filósofo Erich Fromm alertava que o poder pode revelar traços imaturos escondidos na personalidade: “O poder não corrompe apenas; muitas vezes ele desmascara aquilo que ainda não amadureceu dentro do indivíduo.”
Quando isso ocorre, decisões públicas passam a carregar a tonalidade emocional de ressentimentos privados.
Já Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da logoterapia, lembrava que a verdadeira maturidade humana está na capacidade de responder aos acontecimentos com responsabilidade: “Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço reside a nossa liberdade e o nosso crescimento.”
Na política, esse espaço deveria ser ocupado pela prudência, pela razão de Estado e pela consciência histórica.
Quando ele é preenchido por gestos de irritação ou demonstrações de bravata, o governante corre o risco de parecer menos um estadista e mais aquilo que a sabedoria popular brasileira chama de “menino amarelo” — a criança birrenta que reage ao conflito não com grandeza, mas com o gesto pequeno de quem fecha o portão para provar que manda no quintal.
E a história costuma ser implacável com esses momentos.
Porque, no teatro da política, o poder pode até permitir a encenação da força — mas o tempo sempre revela quem agiu como estadista e quem apenas fez birra diante do mundo.


