A revelação de um contrato de R$ 38 milhões entre o escritório de advocacia ligado ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e um fundo associado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal no escândalo do Banco Master, adicionou novos elementos de tensão ao cenário político de Brasília. O tempo passa e o Governador vai ficando isolado.

O acordo, firmado em maio de 2024 e detalhado em reportagem de O Globo, envolveu a venda de direitos creditórios de honorários advocatícios do escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria, com data-base de dezembro de 2021.
A operação ocorre no mesmo período em que o BRB ampliava a aquisição de carteiras do banco controlado por Daniel Vorcaro, circunstância que agora amplia o escrutínio político e jurídico sobre o governador.
Em final de mandato, o Governador vai se isolando cada vez mais do circulo do Poder, buscando alternativas minimamente viáveis para amenizar suas delicada situação.
E, quando o trono começa a balançar, a multidão que aplaudia aprende com impressionante rapidez o valor estratégico da distância. Uma pedagogia cruel — e, para quem observa de fora, inevitavelmente irônica.
Nos momentos finais do poder, o silêncio costuma ser mais eloquente que os discursos.
A medida que o mandato se aproxima do ocaso, muitos daqueles que antes orbitavam o centro das decisões se afastam, como se o poder fosse uma chama que aquece apenas enquanto arde intensamente.
O governante, antes cercado por conselheiros, aliados e interesses, passa a experimentar uma forma peculiar de solidão política — o isolamento produzido pelo próprio sistema que, até então, o sustentava.
A máquina do poder é pragmática: ela se move em direção ao futuro e raramente permanece ao lado de quem já se aproxima do passado.
Nesse instante, as relações revelam sua verdadeira natureza — menos afeição, mais cálculo. Como observou Maquiavel, “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio”, lembrando que a política frequentemente é regida por conveniências antes de lealdades.
No fim, resta ao governante confrontar uma verdade que o poder costuma esconder: cargos são transitórios, enquanto as consequências das decisões permanecem. O sistema que um dia acolhe também sabe afastar.
E, quando isso ocorre, o poder deixa de ser multidão e volta a ser aquilo que sempre foi em sua essência — um exercício profundamente solitário.
O crepúsculo do poder costuma ser um momento pedagógico — sobretudo para quem passou anos acreditando que o sistema era uma espécie de fraternidade permanente.
Quando o mandato se aproxima do fim e as pressões se acumulam, descobre-se que os corredores do poder têm uma acústica curiosa: antes cheios de vozes e cumprimentos, tornam-se subitamente silenciosos.
A política, afinal, é generosa com os vitoriosos e parcimoniosa com quem já parece caminhar para o arquivo da história.
Há algo de profundamente irônico nesse ritual. Os mesmos circuitos que antes celebravam a proximidade com o poder passam a cultivar uma prudente distância, como se a gravidade política mudasse de direção.
A lealdade, que ontem parecia convicção moral, revela-se muitas vezes apenas cálculo de sobrevivência. François de La Rochefoucauld já advertia, com a acidez dos moralistas franceses: “Na adversidade dos nossos melhores amigos sempre encontramos algo que não nos desagrada.”
Assim, no fim do mandato, o poder oferece sua última lição — talvez a mais honesta de todas.
Ele mostra que a corte nunca pertence ao rei; pertence apenas ao trono.
E, quando o trono começa a balançar, a multidão que aplaudia aprende com impressionante rapidez o valor estratégico da distância. Uma pedagogia cruel — e, para quem observa de fora, inevitavelmente irônica.


