Ao condenar a incursão dos Estados Unidos e defender a resolução do conflito por vias diplomáticas — ao mesmo tempo em que criticou a retaliação iraniana contra países do Golfo — o Itamaraty buscou sustentar a tradição histórica do Brasil de defesa do multilateralismo e da solução pacífica de controvérsias.

O agradecimento público do embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, ao governo Lula pelo posicionamento após os ataques norte-americanos reacendeu um debate clássico da diplomacia brasileira: o equilíbrio entre autonomia estratégica e pragmatismo econômico.
A estratégia, contudo, não ocorre em terreno neutro.
O conflito envolve atores centrais para a geopolítica energética e financeira global, e qualquer sinalização política pode produzir ruídos diplomáticos.
Para o ex-chanceler Celso Amorim, “a política externa brasileira deve ser guiada pela defesa do direito internacional e da multipolaridade, não por alinhamentos automáticos”. Já Rubens Ricupero, ex-embaixador em Washington, costuma alertar que “na diplomacia, a forma é tão importante quanto o conteúdo; gestos simbólicos têm efeitos concretos”.
No plano diplomático, o Brasil tenta preservar sua imagem de ator moderador, capaz de dialogar com diferentes polos de poder — Estados Unidos, União Europeia, países árabes e Irã.
A tradição diplomática brasileira — construída ao longo de décadas — valoriza a não intervenção, o respeito à soberania e a solução negociada de conflitos. O teste, agora, é manter credibilidade junto a todos os parceiros estratégicos, evitando que a defesa do diálogo seja interpretada como alinhamento político.
A nota posterior condenando a retaliação iraniana indica uma tentativa de equilíbrio, evitando que o país seja percebido como alinhado unilateralmente a Teerã. Ainda assim, especialistas avaliam que a percepção externa pode variar conforme a leitura política de cada capital.
Os impactos econômicos merecem atenção. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e um dos principais investidores estrangeiros no país.
Países do Golfo, por sua vez, ampliaram nos últimos anos sua presença em investimentos estratégicos, especialmente em infraestrutura, energia e agronegócio. Uma eventual deterioração diplomática poderia afetar negociações comerciais, fluxos de investimento e até cadeias de exportação — sobretudo de proteínas e commodities agrícolas, setores sensíveis a mercados do Oriente Médio.
Além disso, tensões no Golfo Pérsico tendem a pressionar o preço do petróleo, com reflexos diretos na inflação doméstica brasileira. Alta nos combustíveis impacta transporte, alimentos e o custo de vida, produzindo efeitos políticos imediatos. “Em um mundo interdependente, crises regionais se transformam rapidamente em pressões macroeconômicas internas”, observa o embaixador aposentado Marcos Azambuja.
No plano político interno, o posicionamento pode reforçar a base ideológica do governo, que defende maior autonomia frente às potências tradicionais e a construção de uma ordem internacional mais multipolar.
Por outro lado, oferece à oposição argumento para questionar prioridades diplomáticas em um momento de desafios fiscais e econômicos. A política externa, tradicionalmente consensual no Brasil, passa a ser também campo de disputa narrativa.
O desafio do Itamaraty será sustentar coerência entre princípios e pragmatismo.
A tradição diplomática brasileira — construída ao longo de décadas — valoriza a não intervenção, o respeito à soberania e a solução negociada de conflitos. O teste, agora, é manter credibilidade junto a todos os parceiros estratégicos, evitando que a defesa do diálogo seja interpretada como alinhamento político.
Em um cenário global fragmentado, o Brasil busca afirmar protagonismo sem comprometer interesses comerciais e estabilidade interna.
O equilíbrio entre valores e interesses, como lembrava o diplomata San Tiago Dantas, é “a arte permanente da política externa”. O custo de um eventual desequilíbrio pode não ser imediato — mas, em diplomacia, quase sempre é cumulativo.


