Entre alertas que se acumulam e correções que tardam no âmbito do Governo Federal , o humano se revela: repete erros não por falta de aviso, mas pela recusa — consciente ou não — de transformar consciência em mudança.

Com a eficiência de um oráculo digital — que vê tudo, mas ainda precisa “confirmar” depois — a Controladoria-Geral da União acumulou 34,7 mil alertas de possíveis irregularidades em licitações desde 2023.
Segundo o órgão, os dados foram gerados por ferramentas preditivas de análise e inteligência artificial, mas que dependem de validação individual pelas equipes de auditoria.
A inteligência artificial suspeita, a burocracia pondera e, no fim, apenas uma fração vira auditoria: 729 casos.
Entre algoritmos vigilantes e decisões cautelosamente humanas, a máquina aponta, o Estado hesita — e a dúvida, como sempre, segue em tramitação.
O ser humano, com inquietante frequência, não apenas erra — ele repete.
Reincide como quem percorre um labirinto já conhecido, reconhece as paredes, mas insiste em ignorar a saída. A experiência, que deveria instruir, por vezes apenas registra; e a consciência, que poderia libertar, frequentemente se limita a justificar.
Sigmund Freud, ao analisar o que chamou de compulsão à repetição, afirmou que o indivíduo “é levado a repetir o reprimido como uma experiência atual, em vez de recordá-lo como algo pertencente ao passado”.
Não se trata, portanto, de ignorância simples, mas de uma engrenagem psíquica mais profunda, onde o sujeito revive padrões, mesmo que dolorosos, como se buscasse — paradoxalmente — dominá-los. O erro, nesse contexto, deixa de ser acidente e passa a ser destino mal elaborado.
Carl Gustav Jung, por sua vez, advertiu com precisão quase clínica: “Aquilo que você resiste, persiste; aquilo que você aceita, transforma”.
Ao evitar o confronto honesto com as próprias sombras — impulsos, traumas, fragilidades — o indivíduo se condena a reproduzi-las em ciclos quase ritualísticos. Não há evolução onde há negação sistemática de si.
Na psicologia contemporânea, Aaron Beck, fundador da terapia cognitiva, destacou que padrões disfuncionais de pensamento moldam comportamentos repetitivos, muitas vezes autossabotadores.
“As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pela visão que têm delas”, ecoando Epicteto e sendo retomado por Beck em chave clínica. Assim, o erro reincidente não é apenas uma falha de ação, mas de interpretação da realidade — um roteiro interno que se reencena com pequenas variações e grandes consequências.
Do ponto de vista existencial, Viktor Frankl acrescenta uma dimensão ainda mais inquietante: a liberdade humana não está em evitar condicionamentos, mas em escolher a resposta a eles. “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolha”, escreveu.
A reincidência, então, revela não apenas fragilidade, mas uma renúncia silenciosa a esse espaço — uma abdicação da própria liberdade.
As consequências dessa repetição são, muitas vezes, cumulativas e silenciosas.
Relações que se desgastam pelos mesmos motivos, decisões que reiteram perdas previsíveis, trajetórias que parecem girar em círculos enquanto o tempo avança implacável.
O sujeito, ao insistir no erro, não apenas falha — ele se distancia de si mesmo, tornando-se estranho à própria possibilidade de transformação.
Ainda assim, há uma ironia quase redentora nesse processo: reconhecer a repetição já é, em si, uma ruptura inicial. Admitir — como sugere a tradição psicanalítica — é deslocar o inconsciente para o campo da escolha. E escolher diferente, ainda que tardiamente, é talvez o gesto mais autêntico de evolução existencial.
No fim, o ser humano não é definido pelos erros que comete, mas pela coragem — rara, porém decisiva — de não os repetir indefinidamente. Porque viver, no sentido mais pleno, não é apenas acumular experiências, mas permitir que elas, de fato, nos transformem.


