A máxima de que o cérebro “encerra o expediente” aos 25 anos persiste como um mito conveniente — e cientificamente insustentável.

Embora muitos relatem maior dificuldade para aprender com o passar do tempo, especialistas esclarecem que o fenômeno não indica um declínio da capacidade cognitiva, mas uma transformação no modo como o conhecimento é assimilado.
“Não há fundamentação científica. A capacidade de aprendizado é contínua ao longo de toda a vida”, afirma. O cérebro continua criando conexões e se adaptando, mesmo depois dos 25 anos.
O psiquiatra Tales Cordeiro, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, afirma que não há qualquer evidência que sustente a interrupção do aprendizado na vida adulta.
Ao contrário, a ciência observa, demonstra e reforça: o cérebro permanece plástico, adaptável e em constante construção ao longo de toda a vida.
Em vez de um ponto final, a maturidade representa apenas uma mudança de método — menos impulso, mais repertório; menos velocidade, mais profundidade.
O cérebro não é apenas um órgão; é o centro silencioso onde o corpo se torna experiência e a matéria adquire sentido. Nele, pulsa uma arquitetura invisível que coordena desde o ritmo do coração até a tessitura dos pensamentos mais abstratos.
Ainda assim, tratamo-lo, por vezes, como uma máquina previsível — quando, na verdade, ele se comporta mais como um universo em expansão, instável, plástico e profundamente sensível às marcas do tempo e da vida.
O neurologista António Damásio observa que “o cérebro é o palco onde o organismo se torna consciente de si”, sugerindo que não há separação real entre corpo e mente, mas uma integração contínua e dinâmica.
Já a neurocientista Suzana Herculano-Houzel argumenta que a singularidade humana reside na complexidade de suas redes neurais, capazes de transformar impulsos elétricos em linguagem, memória e cultura.
Essas constatações não apenas explicam funções; elas revelam um paradoxo: somos, ao mesmo tempo, autores e reféns de um sistema que mal compreendemos em sua totalidade.
Do ponto de vista médico, o cérebro regula, integra e adapta.
Ele interpreta sinais, corrige rotas, antecipa riscos e sustenta o equilíbrio interno — aquilo que a fisiologia chama de homeostase.
O psiquiatra Tales Cordeiro afirma que “a capacidade de adaptação cerebral é contínua ao longo da vida”, reforçando que o organismo não opera por rigidez, mas por flexibilidade.
Ainda assim, essa plasticidade não é ilimitada: ela exige estímulo, cuidado e, sobretudo, consciência de sua própria fragilidade.
Há, portanto, uma dimensão existencial inevitável.
Se o cérebro organiza o corpo, também organiza o mundo que percebemos. Ele filtra, distorce, amplia e, por vezes, engana.
O que chamamos de realidade é, em grande medida, uma construção neural — um acordo provisório entre estímulos externos e interpretações internas.
Nesse sentido, compreender o cérebro não é apenas um exercício científico, mas um gesto filosófico: é confrontar a origem de nossos medos, desejos e certezas.
Ignorá-lo, como frequentemente fazemos, é negligenciar o próprio eixo da existência.
Cuidá-lo, por outro lado, não se resume à ausência de doença, mas implica reconhecer sua centralidade — biológica, psicológica e simbólica.
Afinal, enquanto o coração insiste em nos manter vivos, é o cérebro que, silenciosamente, decide o que fazer com essa vida.


